Se você tem cerca de 25 anos ou mais e joga videogame desde cedo, provavelmente cresceu com títulos como Need for Speed ou Burnout Paradise. Jogos que capturavam aquela vibe de corridas de rua ao estilo de Velozes e Furiosos — com velocidade absurda, batidas sem limites e uma sensação constante de adrenalina.
Com o passar dos anos, jogos desse estilo ainda existem, mas é evidente que já não atingem o mesmo público nem alcançam o mesmo impacto de antes. É justamente mirando nessa ausência que Screamer, desenvolvido pela Milestone e disponível para PC, PS5 e Xbox, tenta ocupar esse espaço. A questão é: será que ele consegue?
Narrativa confusa
Algo que tornou Screamer interessante desde o seu anúncio foi o foco em narrativa — um elemento que sempre considerei pouco explorado em jogos de corrida. Além disso, tudo que era mostrado indicava um jogo visualmente estiloso e potencialmente muito divertido.
O game transporta o jogador para um universo cyberpunk, dominado por corporações, gangues e corridas clandestinas — algo bastante comum em histórias ambientadas nesse tipo de mundo.

Dentro desse cenário somos introduzidos a um torneio ilegal que dá nome ao jogo: Screamer. O evento é organizado por uma corporação liderada por um homem misterioso conhecido como Mr. A., que promete ao grupo vencedor um prêmio de R$ 100 milhões. Em uma sociedade tomada pela corrupção, não é surpresa que pilotos do mundo inteiro se interessem pela competição.
A história acompanha cinco equipes, cada uma formada por três corredores. Cada grupo possui motivações próprias e, em muitos casos, o dinheiro acaba ficando em segundo plano diante de questões pessoais.
Entre essas equipes, somos apresentados ao que pode ser considerado o grupo principal: Green Reapers, formado por Hiroshi, Frederic e Róisin. O objetivo da equipe é acertar as contas com Gabriel, integrante da equipe Anaconda, que teria prejudicado alguém do antigo grupo deles.

Ao longo da narrativa, o jogador alterna entre diferentes equipes. Essa estrutura ajuda a apresentar as motivações de cada grupo e cria uma tentativa clara de aproximar o jogador dos personagens e de seus conflitos.
No geral, a narrativa é simples, mas bem contada. Durante a campanha, porém, tive a sensação de que ela funciona principalmente como um grande tutorial, apresentando pistas, sistemas e mecânicas do jogo.
Outro detalhe curioso está na forma como a história é apresentada. O estilo lembra JRPGs clássicos: personagens estáticos na tela enquanto os diálogos avançam. Apesar disso, a dublagem é muito bem feita e há um elemento interessante — cada personagem fala em sua língua nativa. Assim, um personagem francês fala francês, por exemplo. Isso não atrapalha a interação entre eles e lembra bastante o que acontece na série Tekken.
Em alguns momentos também surgem cutscenes animadas em estilo anime, que são visualmente bonitas e ajudam a dar mais identidade ao jogo.
No fim das contas, a narrativa é agradável de acompanhar e funciona bem dentro da proposta, principalmente por não ser longa nem cansativa.
Gameplay — onde o jogo realmente brilha
Se a narrativa foi algo que chamou minha atenção inicialmente, o que realmente me prendeu em Screamer foi o gameplay.
O jogo abraça totalmente o estilo arcade, mas ainda assim exige habilidade do jogador. As inspirações em clássicos do gênero são claras — e, felizmente, o jogo parece ter entendido bem quais elementos valiam a pena resgatar.
Aqui, tudo é exagerado da forma certa:
- carros atingem velocidade máxima em segundos;
- colisões contra paredes não destroem completamente o veículo;
- o uso de turbo leva a corridas absurdamente rápidas.
Outro ponto interessante é que o jogo abandona carros licenciados, apostando em veículos originais com designs criativos e estilizados, muitas vezes ignorando qualquer compromisso com a aerodinâmica realista.
E acelerar em Screamer é realmente divertido.

Apesar de ser arcade, o jogo traz uma mecânica que exige atenção: um câmbio semi-automático. A troca de marcha não é obrigatória, mas faz diferença no desempenho — especialmente pensando no futuro modo online.
Funciona assim:
- enquanto você acelera, o indicador de velocidade (que começa branco) fica amarelo quando é hora de trocar a marcha;
- cabe ao jogador apertar R1 (no PS5) para subir a marcha;
- quanto mais rápido for o timing da troca, maior será o ganho de velocidade.
Vale destacar que a troca acontece apenas para subir marchas, enquanto a redução é automática.
Pode parecer uma exigência grande para um arcade, mas na prática funciona muito bem. A mecânica adiciona tensão às corridas e mantém o jogador atento o tempo todo, deixando tudo mais desafiador e divertido.
Mecânicas criativas
Outras mecânicas também merecem destaque. O turbo, por exemplo, não funciona apenas com um botão simples. Ao ativá-lo, surge um quick time event: é preciso apertar o botão no momento certo. Quanto melhor o timing, mais eficiente será o turbo.
Outra mecânica clara inspiração em Burnout Paradise aparece aqui com o sistema chamado ECHO.
Esse sistema permite que o carro seja totalmente destruído e, logo em seguida, reconstruído instantaneamente — quase como se o tempo voltasse alguns segundos. Isso abre espaço para momentos caóticos e estratégicos nas corridas.
Além disso, o jogo introduz elementos que lembram um battle royale, permitindo atacar ou se defender durante as provas. Alguns personagens também possuem habilidades únicas, o que aumenta a variedade e deixa as corridas ainda mais imprevisíveis.
Durante o período de análise, infelizmente não foi possível testar o modo online, já que ele será liberado após o lançamento. Ainda assim, tudo indica que essa será uma parte muito importante do jogo — e talvez onde ele realmente brilhe.
Lindo… e estranho ao mesmo tempo
Visualmente, Screamer tem momentos muito fortes. Os carros, personagens, iluminação e estilo artístico são muito bem feitos e combinam perfeitamente com a estética cyberpunk e o tema de corridas de rua.

Por outro lado, as pistas deixam a desejar. Não chegam a ser feias, mas muitas vezes parecem menos detalhadas ou inspiradas do que o restante do jogo. Isso cria uma sensação curiosa: em certos momentos, o game parece uma mistura de muito bonito e um pouco simples demais.
Ainda assim, nada que comprometa completamente a experiência — e é algo que pode melhorar com atualizações futuras.
Conteúdo e modos de jogo
Screamer demonstra entender bem a importância de oferecer variedade de conteúdo para diferentes tipos de jogadores. Além da campanha principal e do modo online que será disponibilizado futuramente, o jogo inclui diversos modos que ampliam a experiência e aumentam a longevidade da gameplay.
Entre eles estão os modos arcade tradicionais, batalhas em equipes, corridas contra o tempo e desafios focados em destruição, que reforçam o lado mais caótico e divertido do jogo. Outro ponto positivo é a presença do multiplayer local com tela dividida para até quatro jogadores, algo cada vez mais raro atualmente e que pode render boas sessões de jogo entre amigos.

A personalização também marca presença, embora de forma mais simples quando comparada a franquias como Gran Turismo, Forza Horizon ou a própria série Need for Speed. Ainda assim, dentro da proposta do jogo, ela cumpre bem seu papel. Cada personagem possui estilo próprio, habilidades específicas e carros característicos, que vão sendo desbloqueados ao longo da campanha e conforme desafios são concluídos.
Não é um sistema extremamente profundo, mas também não chega a decepcionar e acaba funcionando bem dentro da experiência que o jogo se propõe a entregar.
Observações finais
Alguns detalhes adicionais também merecem destaque. O jogo conta com localização completa em português do Brasil, com uma adaptação muito bem feita. Durante os testes no PS5 base, o desempenho foi excelente, sem a presença de bugs ou problemas técnicos perceptíveis ao longo da análise.
Outro ponto positivo é o sistema de som, que se mostra bastante competente. O barulho dos motores e o impacto das colisões ajudam a reforçar a sensação de velocidade e intensidade das corridas, contribuindo para deixar a experiência ainda mais imersiva.

Vale a pena?
Preciso ser honesto: jogos de corrida atualmente estão longe de ser minha prioridade. E isso, curiosamente, acaba sendo um grande mérito de Screamer. Ele conseguiu despertar minha vontade de jogar logo que foi anunciado.
Depois de jogar, fiquei satisfeito com essa escolha.
Screamer é um jogo de corrida extremamente divertido, que — seja online ou localmente — pode oferecer uma experiência que muitos jogadores talvez não sintam desde a era dos clássicos do PS2 e PS3.
Ele tem suas derrapadas e fica claro em alguns momentos que existe uma limitação de orçamento, o que impede o jogo de alcançar algo ainda maior.
Mas, ao mesmo tempo, isso também mostra algo positivo: mesmo com limitações, a equipe conseguiu criar um jogo criativo, com identidade e, principalmente, com alma de videogame.
Agora resta ver como o público vai abraçar o modo online — e até onde a comunidade conseguirá levar o jogo.

- Divertido e resgata a alma arcade
- Acerta nas inspirações, escolhendo o melhor de cada uma
- Performance excelente
Screamer está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S, e PC.
Este review só foi possível graças ao envio de uma chave de acesso fornecida pela assessoria, a quem agradecemos pela oportunidade.