A Annapurna Interactive já publicou jogos dos mais variados estilos, mas é uma editora que costuma chamar minha atenção justamente por apostar em experiências diferentes. Faraway segue essa proposta de uma maneira bastante curiosa. Desenvolvido por Steph Thirion, o jogo deixa de lado personagens carismáticos, grandes narrativas e sistemas complexos para colocar uma única estrela cadente no centro de uma experiência baseada em física, ritmo e precisão.

Uma estrela perdida no universo

A premissa é simples: controlar uma estrela que atravessa o universo, utilizando a gravidade de outros astros para mudar sua trajetória e continuar avançando. Pelo caminho, precisamos conectar estrelas para formar constelações, criando desenhos que ajudam a manter nossa jornada. Parece fácil quando explicado dessa maneira, mas existe uma diferença considerável entre entender as regras e conseguir executar tudo o que o jogo exige.

É uma proposta que me chamou a atenção justamente pela simplicidade. Em uma indústria que frequentemente aposta em experiências cada vez maiores, Faraway tenta mostrar que uma mecânica bem trabalhada pode sustentar um jogo inteiro. A questão é que essa simplicidade também traz algumas limitações, principalmente quando o desafio começa a exigir uma precisão que nem sempre é fácil de alcançar.

Um botão, infinitas possibilidades?

O grande diferencial de Faraway está em seu sistema de movimentação. A estrela avança constantemente pelo espaço, e o jogador precisa segurar um botão para entrar na órbita de outros astros. Ao soltá-lo no momento certo, utiliza o impulso acumulado para mudar de direção e alcançar o próximo ponto.

É uma mecânica que exige entender o comportamento da estrela, calcular trajetórias e encontrar o momento ideal para executar cada movimento. Nas fases de constelação, o objetivo é conectar os astros sem cruzar os caminhos já traçados, formando desenhos que recompensam a precisão e o planejamento.

Gosto da ideia de construir uma experiência inteira a partir de um comando tão simples. Não existe uma lista enorme de habilidades para memorizar ou dezenas de sistemas disputando nossa atenção. Tudo gira em torno de compreender a física do movimento e aprender a utilizar o ambiente a nosso favor.

O problema é que a simplicidade dos controles não significa que a experiência seja necessariamente intuitiva. Pelo contrário, existe uma curva de aprendizado considerável, e alguns movimentos exigem um nível de precisão que pode ser bastante frustrante. Você pode saber exatamente qual caminho precisa seguir e, ainda assim, errar o momento de soltar o botão por uma diferença mínima.

É nesse ponto que Faraway começa a dividir opiniões. Para quem gosta de dominar uma mecânica aos poucos, aprender com os erros e perceber uma evolução gradual na própria habilidade, existe bastante potencial aqui. Para quem espera que os comandos respondam de maneira mais previsível, porém, a experiência pode se tornar cansativa rapidamente.

Entre o relaxamento e a frustração

Visualmente, Faraway aposta em uma apresentação minimalista, com estrelas, cores vibrantes e formas geométricas contrastando com a escuridão do espaço. Não existe a preocupação de construir cenários detalhados ou impressionar com efeitos complexos. Tudo está organizado para destacar os elementos que realmente importam durante a jogabilidade.

A trilha sonora eletrônica complementa essa proposta e é um dos pontos altos da experiência. As músicas ajudam a criar uma atmosfera contemplativa, enquanto os sons acompanham o ritmo das ações e reforçam a sensação de estar atravessando um universo abstrato. Existe uma combinação interessante entre imagem e som que faz o jogo parecer quase meditativo em seus melhores momentos.

E digo isso porque Faraway tem uma dualidade curiosa. Em determinadas situações, é possível entrar em um ritmo agradável, antecipar os movimentos e conectar os astros quase como se estivesse executando uma coreografia. Quando tudo funciona, a simplicidade da proposta se transforma em seu maior mérito.

Mas basta errar uma trajetória importante para que essa tranquilidade desapareça. A necessidade de acertar o tempo dos movimentos pode transformar uma fase aparentemente simples em uma sequência de tentativas frustradas. E, quando você passa vários minutos tentando realizar o mesmo desenho, a sensação de relaxamento dá lugar à irritação.

Não considero que um jogo desafiador precise evitar esse tipo de situação. O problema é quando a dificuldade não parece acompanhar uma evolução igualmente satisfatória na maneira como aprendemos a jogar. Em Faraway, a diferença entre uma execução perfeita e uma tentativa frustrada pode ser pequena demais para que o erro pareça justo.

Dois modos, a mesma mecânica

Faraway oferece diferentes maneiras de explorar sua proposta. A campanha apresenta desafios construídos manualmente e funciona como uma introdução gradual às mecânicas, acrescentando novas situações conforme avançamos. Já o modo infinito aposta na geração procedural, colocando o jogador em uma jornada de sobrevivência na qual precisa continuar avançando e formar constelações para prolongar sua duração e melhorar a pontuação.

Essa divisão ajuda a dar mais utilidade ao sistema de movimentação. A campanha permite conhecer os fundamentos e experimentar desafios específicos, enquanto o modo infinito oferece uma experiência voltada à repetição e à busca por resultados melhores.

A geração procedural também contribui para a longevidade, já que as possibilidades não se limitam aos desafios feitos à mão. Existe espaço para tentar superar a própria pontuação, aprimorar a execução e descobrir maneiras mais eficientes de aproveitar o impulso entre os astros.

Ainda assim, os dois modos dependem bastante da mesma mecânica central. Isso não seria necessariamente um problema se o movimento fosse sempre satisfatório, mas a curva de aprendizado pode dificultar o envolvimento com as diferentes atividades. Quando a movimentação não encaixa, a variedade de modos acaba tendo menos impacto do que poderia.

É uma pena porque a base do jogo tem potencial para sustentar uma experiência bastante viciante. Aquele desejo de tentar mais uma vez, corrigir um erro e finalmente completar uma sequência perfeita está presente. O desafio é fazer com que essa insistência seja motivada pela vontade de melhorar, e não apenas pela frustração de não conseguir executar o que já sabemos fazer.

Veredito

Faraway é uma experiência curiosa que demonstra como uma ideia simples pode render possibilidades interessantes quando recebe toda a atenção do desenvolvedor. A movimentação baseada em gravidade, a construção de constelações e a apresentação minimalista dão ao jogo uma identidade própria. A trilha sonora também merece destaque, ajudando a criar momentos em que a experiência realmente encontra seu ritmo.

Por outro lado, a precisão exigida pelos controles e a curva de aprendizado podem tornar a jornada frustrante. Entender o que precisa ser feito nem sempre significa conseguir executar o movimento, e essa diferença acaba prejudicando uma mecânica que deveria ser o principal atrativo da experiência.

No fim, Faraway tem uma ideia criativa e momentos em que sua simplicidade funciona muito bem, mas nem sempre consegue transformar o desafio em satisfação. É um jogo que pode conquistar quem gosta de dominar sistemas complexos a partir de regras simples, embora tenha dificuldade para manter esse mesmo apelo quando os erros começam a se acumular.

  • Mecânica criativa;
  • Trilha sonora envolvente;
  • Visual minimalista.

Faraway já está disponível para PlayStation 5, Xbox Series S/X, Nintendo Switch e PC.

Este review só foi possível graças ao envio de uma chave de acesso fornecida pela assessoria, a quem agradecemos pela oportunidade.