Resident Evil é uma das maiores franquias da indústria e, nos últimos 20 anos, mostrou-se ao mesmo tempo constante e instável. Sua trilogia original — Resident Evil (1996), Resident Evil 2 (1998) e Resident Evil 3: Nemesis (1999) — é amplamente considerada um conjunto de masterpieces do survival horror, ao lado do às vezes esquecido, porém maravilhoso, Resident Evil Code: Veronica (2000).

Não satisfeita, a Capcom decidiu inovar e trazer uma nova visão do que seria um survival horror moderno. Foi assim que surgiu Resident Evil 4 (2005), que até hoje permanece como um dos modelos ideais de tiro em terceira pessoa.

Entretanto, nem tudo foram flores. Após uma sequência de ótimos lançamentos, vieram também algumas decepções — ainda que lucrativas. Com Resident Evil 5 (2009), a ação nascida em Resident Evil 4 deixou de ser divertida e tensa para se tornar algo mais próximo de uma adaptação de Call of Duty em terceira pessoa, com foco excessivo no cooperativo.

Mesmo assim, o sucesso comercial foi enorme, muito impulsionado pelo carinho que o público ainda tinha por seu antecessor. Isso acabou abrindo caminho para que a Capcom fosse ainda mais longe em 2012 com Resident Evil 6.

Ali, todos os problemas da série vieram à tona: ação exagerada, quick time events cansativos e quatro campanhas que tentavam contar uma história de catástrofe global. A franquia parecia ter perdido completamente sua identidade.

Depois disso, a série numerada entrou em hiato. Ficou a pergunta no ar: para onde iria Resident Evil depois do quase apocalipse apresentado no sexto jogo?

A resposta veio em 2017 com Resident Evil 7: Biohazard, provavelmente o Resident Evil mais importante desde o quarto jogo. A Capcom reinventou a série novamente: nova perspectiva em primeira pessoa, novo protagonista e um foco muito maior em horror e atmosfera.

Toda aquela ação desinteressante deu lugar a momentos de tensão prolongada, exploração, puzzles e muito backtracking — ou seja, um retorno claro às raízes do survival horror.

Com o sucesso crítico de Resident Evil 7, era natural esperar que a sequência seguisse o mesmo caminho: mais terror, continuação da história de Ethan Winters e mais respostas sobre a misteriosa organização Conexões.

Mas o que recebemos foi algo diferente.

Resident Evil Village (2021) trouxe uma história inspirada em contos góticos e medievais, com diversas homenagens a Resident Evil 4. O jogo diminuiu o horror e apostou mais em ação e set pieces.

Apesar de algumas críticas por se afastar da atmosfera do sétimo jogo, Village foi bem recebido e consolidou a saga de Ethan Winters em um mundo mais fantasioso e estilizado.

E então chegamos a Resident Evil Requiem, o nono capítulo da série principal.

Uma nova protagonista para o terror

Resident Evil 9 chega com grandes responsabilidades. O jogo precisava apresentar uma nova protagonista depois do divisivo Ethan Winters, trazer de volta os zumbis clássicos e equilibrar horror e ação — algo que a série sempre tenta fazer, nem sempre com sucesso.

Além disso, o jogo marca o retorno de Leon S. Kennedy em um título numerado pela primeira vez desde 2012. Com nota 95 de usuários no Metacritic, a expectativa já estava altíssima.

E, felizmente, a Capcom parece ter entendido exatamente o que estava fazendo.

A introdução de Grace Ashcroft funciona muito bem como ponto central da experiência de horror. A personagem resgata algo que a série tinha perdido: vulnerabilidade.

Grace é curiosa, frágil e humana — exatamente o tipo de protagonista que funciona em um jogo de terror.

Grande parte de sua jornada acontece em Rhodes Hill, um centro de cuidados abandonado cheio de corredores escuros, portas trancadas, segredos e, claro, zumbis.

É impossível não lembrar da Mansão Spencer.

Horror clássico com novas ideias

Durante a exploração, Grace é perseguida pela criatura conhecida apenas como “A Garota”, um inimigo inicialmente imortal que funciona como o grande perseguidor do jogo.

A presença dela transforma os corredores apertados de Rhodes Hill em um verdadeiro pesadelo.

Quando não está fugindo da criatura, Grace enfrenta zumbis cheios de personalidade — desde cantoras até antigos funcionários do local — além de monstros grotescos que bloqueiam corredores inteiros com massas de carne deformada.

O design das criaturas aqui é simplesmente excelente. O centro de cuidados é dividido entre Ala Leste e Ala Oeste, cada uma dominada por um tipo diferente de perseguidor.

A grande novidade é que esses inimigos podem ser derrotados. Mas há um custo.

Para fazer isso, o jogador precisa gastar uma quantidade enorme de munição e recursos — o que transforma cada decisão em algo tenso e estratégico.

É survival horror puro.

A volta de Leon e da ação

Mas a Capcom não queria apenas fazer um survival horror clássico. Ela também queria dar uma nova chance à ação introduzida em Resident Evil 4. E é aqui que Leon S. Kennedy entra.

Leon funciona como o contraponto perfeito à jornada de Grace. Se Grace representa vulnerabilidade, Leon representa controle.

Suas seções são muito mais intensas e voltadas para combate, funcionando como momentos de respiro entre os trechos mais tensos do jogo.

Explorar Raccoon City destruída é uma das partes mais interessantes da experiência. A cidade está mais atmosférica do que nunca. E o gameplay de Leon lembra muito o que vimos em Resident Evil 4, mas com diversas melhorias.

Ele possui mais armas, mais golpes físicos e uma mobilidade maior. A sensação é clara: Leon não está preso com os monstros.

São os monstros que estão presos com ele.

Estrutura mais aberta

Uma surpresa agradável é que os trechos de Leon são menos lineares do que em jogos anteriores.

Existem áreas amplas que podem ser exploradas em diferentes ordens, além de seções mais lineares recheadas de momentos cinematográficos.

Leon enfrenta criaturas gigantescas dignas de um novo El Gigante. Mas os inimigos comuns também são extremamente agressivos. O jogo parece entender perfeitamente quem Leon é: um personagem poderoso, mas que ainda precisa lutar para sobreviver.

Duas trilhas, duas atmosferas

A trilha sonora reforça essa dualidade. Os trechos de Grace são quase silenciosos. O foco está em ruídos ambientais, gemidos, rangidos e vozes distantes.

O silêncio pesa.

Já as seções de Leon trazem uma trilha com pegada cyberpunk misturada com horror, criando uma identidade sonora forte. A música intensifica a adrenalina sem abandonar o desconforto.

Essa alternância entre estilos funciona muito bem.

Visual impressionante

Tecnicamente, Resident Evil Requiem também impressiona. O salto gráfico em relação ao remake de Resident Evil 4 (2023) é evidente.

Expressões faciais são convincentes, cabelos têm movimento natural e a iluminação é usada com precisão absurda. As animações também são brutalmente detalhadas.

Ver os olhos de um zumbi saltando do crânio em primeira pessoa é algo que realmente revira o estômago. Os cenários são lindos e extremamente imersivos.

Rhodes Hill é opressivo e claustrofóbico, enquanto Raccoon City transmite uma beleza melancólica.

Vale a Pena?

Resident Evil Requiem é praticamente um compilado dos melhores momentos da franquia. Um verdadeiro “monstro de Frankenstein” — mas no melhor sentido possível.

O jogo mistura horror clássico, ação moderna e personagens queridos de forma surpreendentemente equilibrada. A Capcom demonstra aqui um domínio impressionante sobre sua própria série.

Mesmo com alguns defeitos pontuais, Resident Evil 9 se consolida como uma das melhores entradas da franquia e possivelmente o melhor Resident Evil desde o lendário Resident Evil 4.

É uma celebração da saga. E, ao mesmo tempo, um novo começo.

  • Ótimo balanceamento entre terror e ação
  • Gráficos lindos
  • Agrada novos e antigos fãs da série