A The Game Bakers, estúdio francês conhecido por Furi e Haven, troca a ação estilizada por algo muito mais cru e humano em Cairn. Aqui, o foco não é velocidade nem espetáculo — é esforço, corpo, risco e silêncio. O resultado é uma experiência que se distancia do videogame tradicional e se aproxima de uma simulação emocional e física da escalada.

Em Cairn, você controla Aava, uma alpinista determinada a se tornar a primeira pessoa a alcançar o cume inexplorado do Mount Kami. A jornada não é apenas geográfica, mas profundamente interna. O jogo aborda temas como sacrifício, isolamento, obsessão e liberdade, sempre com um tom íntimo e contemplativo, sem excessos narrativos ou diálogos explicativos.

Jogabilidade — Onde o jogo realmente testa o jogador

Mesmo jogando na dificuldade mediana, Cairn deixa claro desde cedo que não pretende ser confortável. Ele exige adaptação, atenção e paciência, priorizando a sensação de realismo dentro da sua proposta.

Controles e sensação física

Os controles podem parecer truncados à primeira vista — e isso é totalmente intencional.
Aqui, você não “aperta um botão para subir”. É preciso ler a rocha, posicionar os membros, ajustar o equilíbrio e aceitar que cada movimento tem peso.

Em vários momentos, a sensação é de estar lutando contra o próprio corpo de Aava. Essa fricção constante entre jogador e personagem gera tensão e reforça a imersão, mas também pode afastar quem espera fluidez ou respostas imediatas típicas de jogos de ação.

As três grandes dificuldades de Cairn

Não há caminhos óbvios. Cada parede exige análise cuidadosa para identificar apoios e planejar rotas. Um erro de leitura pode resultar em perda de energia, desperdício de recursos ou quedas perigosas.

Mesmo sem um HUD tradicional, o desgaste é claramente perceptível: falta de oxigênio, exaustão, frio. Decidir quando usar pitons, quando montar acampamento ou quando recuar é tão importante quanto escalar bem.

Altitude, vento e mudanças climáticas transformam trechos simples em situações de risco. A montanha funciona como um inimigo silencioso, sempre presente e exigindo respeito constante.

Direção de áudio e visual — um destaque absoluto

É aqui que Cairn brilha com força.

Visualmente, o jogo aposta em paisagens vastas, cores frias e iluminação natural. A direção de arte transmite, ao mesmo tempo, solidão e grandiosidade. O Mount Kami não é apenas cenário — ele é uma presença constante, quase um personagem.

No áudio, a experiência se torna ainda mais poderosa. O som comunica o estado físico e emocional de Aava: a respiração ofegante, o vento cortando a rocha, o silêncio opressor das alturas. Em vários momentos, é o áudio que faz o jogador sentir o perigo antes mesmo de enxergá-lo.

É uma direção audiovisual que não chama atenção para si, mas envolve completamente.

Impressão geral

Cairn não é um jogo sobre “vencer fases”. É sobre aguentar, insistir e entender o limite entre coragem e teimosia.

Mesmo na dificuldade mediana, ele se mostra exigente, principalmente pelos controles deliberadamente rígidos e pela necessidade constante de leitura do ambiente e das próprias condições físicas da personagem.

Não é uma experiência feita para todos — mas, para quem aceita sua proposta, Cairn entrega algo tenso, belo e profundamente imersivo, que permanece na mente muito depois de desligar o jogo.

Este review só foi possível graças ao envio de uma chave de acesso fornecida pela assessoria, a quem agradecemos pela oportunidade.

Cairn já está disponível para PlayStation 5 e PC.