Um zumbi apaixonado por uma garota congelada, uma jornada pelo submundo e a possibilidade de devorar monstros para roubar suas habilidades. Stupid Never Dies não é exatamente o tipo de jogo que tenta conquistar o público pela sutileza, e talvez seja justamente essa falta de vergonha na cara que mais me chamou a atenção em sua proposta.

Desenvolvido pela GPTRACK50, estúdio formado por veteranos da indústria japonesa, o jogo acompanha Davy, um zumbi considerado um completo fracasso até mesmo entre outras criaturas. Quando ele encontra Julia, uma garota congelada por quem se apaixona, decide fazer o impossível para trazê-la de volta. O caminho para isso envolve enfrentar criaturas monstruosas, explorar masmorras e tentar sobreviver a uma aventura tão absurda quanto sua premissa.

É uma história que não se leva muito a sério e que combina romance, humor exagerado e uma boa dose de bizarrice. Não é necessariamente uma narrativa que vai conquistar todo mundo, mas existe algo interessante nessa tentativa de transformar uma história de amor improvável em um RPG de ação cheio de monstros e situações completamente fora da curva.

O problema é que uma premissa criativa não garante, por si só, uma experiência igualmente interessante. E, conforme avançamos, fica cada vez mais difícil ignorar algumas decisões de gameplay que impedem Stupid Never Dies de aproveitar todo o potencial de suas ideias.

Uma identidade visual cheia de personalidade

Se tem algo que merece destaque em Stupid Never Dies, é sua direção de arte. O jogo aposta em uma estética que mistura referências punk, pop art, rabiscos, colagens e elementos de anime, criando uma apresentação bastante diferente do que estamos acostumados a encontrar em jogos de ação.

Tudo é exagerado, colorido e visualmente carregado. A interface também acompanha essa proposta, com adesivos, ilustrações e uma quantidade considerável de informações espalhadas pela tela. É uma identidade que combina com o humor do jogo e ajuda a dar personalidade a um universo que poderia facilmente parecer apenas mais uma aventura genérica sobre monstros.

A trilha sonora também merece elogios, acompanhando a energia da proposta com músicas que combinam com o ritmo acelerado dos confrontos. É um dos elementos que ajudam a sustentar a personalidade do jogo, principalmente quando a ação está acontecendo e tudo parece estar prestes a sair do controle.

Ao mesmo tempo, essa apresentação pode se tornar excessiva. Existe uma quantidade enorme de informações visuais, efeitos e elementos na interface, e nem sempre é fácil acompanhar tudo o que acontece durante os combates. A direção de arte tem personalidade de sobra, mas sinto que, em alguns momentos, a vontade de colocar mais uma ideia na tela acaba prejudicando a leitura da ação.

Ainda assim, considero esse um dos maiores méritos de Stupid Never Dies. É um jogo que tem uma identidade própria e não parece interessado em seguir uma cartilha para agradar ao maior número possível de pessoas. Pena que essa mesma confiança nem sempre apareça na execução da jogabilidade.

Devore monstros, roube habilidades e tente sobreviver

A principal mecânica de Stupid Never Dies permite que Davy devore determinados inimigos e absorva suas habilidades, assumindo diferentes formas monstruosas durante os confrontos. Ao longo da aventura, é possível experimentar transformações que alteram a maneira de lutar, adicionando novas possibilidades ao combate.

É uma ideia que combina perfeitamente com a proposta do jogo. Em vez de simplesmente encontrar armas cada vez mais poderosas, Davy pode incorporar características das criaturas que enfrenta. Existe potencial para experimentar diferentes abordagens, testar habilidades e encontrar combinações que funcionem melhor para cada situação.

A estrutura roguelite também tenta manter a progressão interessante. As incursões pelas masmorras são organizadas em etapas, com objetivos, inimigos e confrontos contra chefes. Entre uma tentativa e outra, o jogador retorna ao shopping que serve como base, onde pode conversar com personagens, desbloquear melhorias e preparar Davy para a próxima descida.

O problema é que nem todas essas ideias funcionam tão bem na prática. Apesar da variedade de habilidades e transformações, algumas opções parecem consideravelmente mais úteis do que outras, o que diminui a vontade de experimentar tudo o que o jogo oferece. Em vez de incentivar constantemente novas estratégias, o sistema pode acabar levando o jogador a depender das formas mais eficientes e deixar boa parte das alternativas de lado.

É frustrante porque a mecânica de devorar inimigos deveria ser um dos grandes diferenciais da experiência. A possibilidade de assumir diferentes formas é interessante no papel, mas precisa ser acompanhada por um combate consistente e por escolhas que realmente façam diferença. Caso contrário, a variedade existe mais no número de opções disponíveis do que na maneira como elas se traduzem em diversão.

O combate não acompanha a criatividade

É aqui que Stupid Never Dies mais me perde. O jogo apresenta uma quantidade considerável de habilidades, transformações e melhorias, mas o combate não consegue transformar toda essa variedade em uma experiência tão envolvente quanto deveria.

Parte do problema está na precisão das ações. Em um jogo que exige movimentação constante, ataques rápidos e respostas aos movimentos dos inimigos, a sensação de controle precisa ser muito boa. Quando os golpes não respondem da maneira esperada ou fica difícil direcionar os ataques para o alvo desejado, a ação perde parte do impacto.

A ausência de um sistema de mira mais confiável também prejudica a experiência em determinadas situações, principalmente quando há muitos inimigos na tela. O resultado é que alguns confrontos acabam parecendo mais caóticos do que desafiadores, e nem sempre a derrota deixa aquela sensação de que faltou habilidade ou de que seria necessário experimentar outra estratégia.

O sistema de defesa e aparada também precisa contribuir de maneira mais consistente para que o jogador tenha vontade de utilizá-lo. Quando a melhor solução parece ser simplesmente insistir nos ataques mais eficientes, parte das possibilidades oferecidas pelo jogo perde importância.

Não acho que Stupid Never Dies precise transformar seu combate em algo extremamente técnico ou complexo. A proposta é claramente mais descontraída, e existe espaço para uma ação exagerada e acessível. Mas isso não significa que os controles possam deixar a desejar. Mesmo um jogo que quer ser caótico precisa garantir que o jogador consiga entender o que está acontecendo e tenha confiança nas próprias ações.

No fim, o combate acaba sendo a maior decepção. Existe criatividade nas ideias, mas falta consistência para que elas funcionem tão bem quanto deveriam.

Muita progressão, pouca recompensa

Outro problema está na maneira como a progressão se desenvolve. Stupid Never Dies apresenta constantemente novas melhorias, equipamentos, habilidades e sistemas de evolução. A intenção é manter o jogador ocupado, oferecendo pequenas recompensas e novos objetivos a cada retorno ao shopping.

Só que existe uma diferença entre manter a progressão interessante e simplesmente despejar sistemas sobre o jogador. Em determinados momentos, a quantidade de melhorias e menus pode tornar a experiência mais burocrática do que divertida, especialmente quando algumas dessas evoluções oferecem benefícios pouco perceptíveis durante a jogabilidade.

A estrutura roguelite também traz uma repetição natural das incursões. Voltar às masmorras, derrotar inimigos e reunir recursos faz parte da proposta, mas essa rotina precisa continuar interessante para funcionar. No caso de Stupid Never Dies, a repetição pesa mais justamente porque o combate não é forte o suficiente para sustentar tantas horas de confrontos semelhantes.

O jogo tenta compensar isso com uma progressão constante, liberando novas possibilidades e aumentando o poder de Davy. Em alguns momentos, porém, essa evolução parece servir mais para fazer os números crescerem do que para transformar significativamente a experiência. A sensação de avanço está presente, mas nem sempre vem acompanhada de uma mudança que torne a próxima incursão realmente mais interessante.

Também existe uma quantidade considerável de sistemas para aprender, e a apresentação nem sempre facilita a compreensão de como tudo se conecta. São problemas que, isoladamente, talvez não fossem tão graves, mas que acabam se acumulando e tornando a experiência menos envolvente do que sua proposta sugere.

Veredito

Stupid Never Dies é um daqueles jogos que conquistam pela personalidade antes mesmo de mostrar do que são capazes. A premissa absurda, a direção de arte cheia de referências, a trilha sonora e a possibilidade de devorar monstros para assumir diferentes formas mostram que existe criatividade por trás do projeto.

Infelizmente, nem todas essas ideias se traduzem em uma boa experiência de jogo. O combate carece de precisão, algumas transformações parecem muito mais úteis do que outras e a progressão acaba se tornando repetitiva conforme as incursões se acumulam. A quantidade de sistemas também nem sempre ajuda, especialmente quando as melhorias oferecidas não fazem tanta diferença na prática.

Minha nota é 5/10. Não considero Stupid Never Dies um jogo sem qualidades, muito pelo contrário. Existe personalidade suficiente aqui para despertar curiosidade, mas também uma distância considerável entre a criatividade da proposta e a qualidade de sua execução. É uma pena que justamente a parte que deveria sustentar toda essa maluquice, a jogabilidade, seja o aspecto que mais deixa a desejar.

No fim, fica a sensação de que a GPTRACK50 tinha boas ideias e vontade de fazer algo diferente, mas precisava de mais cuidado para transformar tudo isso em uma experiência realmente divertida. Stupid Never Dies tem estilo de sobra, só precisava de um pouco mais de vida onde realmente importa.

  • Direção de arte criativa, colorida e cheia de personalidade;
  • Trilha sonora energética;
  • Mecânica interessante de devorar monstros e absorver habilidades.

Stupid Never Dies já está disponível para PlayStation 5 e PC.

Este review só foi possível graças ao envio de uma chave de acesso fornecida pela assessoria, a quem agradecemos pela oportunidade.