Existe algo muito particular em jogos de terror que conseguem despertar nossa curiosidade pelo mesmo mundo que tentam nos fazer temer. End of Abyss entende muito bem essa relação e constrói uma experiência em que explorar um corredor escuro é tão interessante quanto descobrir o que está esperando por você no final dele.

Desenvolvido pela Section 9 Interactive, estúdio formado por profissionais que trabalharam em Little Nightmares, o jogo mistura elementos de survival horror, exploração e ação em uma aventura marcada por criaturas grotescas e ambientes opressivos.

E já adianto que End of Abyss foi uma das experiências de terror que mais me conquistaram recentemente. Embora tenha problemas na precisão da mira e no funcionamento da câmera durante as esquivas, o jogo apresenta uma identidade visual marcante e uma jogabilidade que torna cada confronto e descoberta bastante satisfatórios.

Um mundo perturbador que desperta curiosidade

A história acompanha Cel, uma técnica de combate enviada com sua equipe para investigar acontecimentos estranhos em uma enorme instalação subterrânea. O que deveria ser uma missão de reconhecimento rapidamente se transforma em uma jornada por um complexo abandonado, repleto de máquinas deterioradas, corredores esquecidos e criaturas grotescas.

A primeira coisa que chama a atenção é a ambientação. A Section 9 Interactive demonstra uma excelente compreensão de como construir um mundo perturbador sem depender exclusivamente de sustos. A iluminação, o desenho das criaturas e a arquitetura dos ambientes trabalham em conjunto para transmitir uma sensação constante de desconforto.

É impossível não lembrar de Little Nightmares. A maneira como Cel parece pequena diante dos cenários, a composição dos ambientes e a atmosfera melancólica remetem diretamente à franquia da Tarsier Studios. Entretanto, End of Abyss encontra sua própria identidade ao incorporar ficção científica, horror corporal e um sistema de combate mais elaborado.

A perspectiva inclinada de cima também funciona muito bem. Embora permita observar boa parte dos ambientes, ela não elimina a sensação de vulnerabilidade. A escuridão esconde detalhes, os corredores podem reservar ameaças inesperadas e a construção dos cenários transforma a instalação em um verdadeiro pesadelo industrial.

O que mais me impressionou foi a capacidade do jogo de despertar curiosidade. Mesmo depois de enfrentar criaturas perigosas, eu continuava querendo descobrir o que havia atrás da próxima porta, encontrar novas passagens e entender melhor os acontecimentos daquele lugar.

Esse equilíbrio entre medo e exploração é, sem dúvida, um dos maiores acertos de End of Abyss.

Little Nightmares com uma arma nas mãos

Apesar das semelhanças visuais com Little Nightmares, a principal diferença está na jogabilidade. Enquanto a franquia da Tarsier Studios aposta na vulnerabilidade e na necessidade de fugir das ameaças, End of Abyss entrega ferramentas para que o jogador consiga enfrentá-las.

E é justamente nesse aspecto que o jogo mais me conquistou.

O feeling da gameplay é excelente. Cel apresenta uma movimentação ágil, e os confrontos exigem atenção ao posicionamento, aos inimigos e aos recursos disponíveis. Existe uma satisfação genuína em aprender a lidar com cada criatura e encontrar maneiras de sobreviver em ambientes que raramente parecem seguros.

Isso não significa que a protagonista seja extremamente poderosa. O jogo consegue preservar a sensação de perigo, mesmo oferecendo recursos para reagir. A sobrevivência depende tanto da administração dos equipamentos quanto da habilidade do jogador.

A combinação de combate e exploração funciona muito bem porque conversa diretamente com a proposta visual. Cel continua parecendo pequena diante daquele universo, mas não está completamente indefesa.

Entretanto, nem tudo funciona perfeitamente.

Um dos problemas que encontrei está na precisão da mira. Em determinados confrontos, principalmente quando vários inimigos aparecem simultaneamente, senti dificuldade para alinhar os disparos com a precisão necessária.

Joguei utilizando controle, então não consigo afirmar se a experiência seria diferente com mouse e teclado. Ainda assim, considerando a importância dos disparos durante os combates, gostaria que o sistema respondesse de maneira mais consistente.

Não é um problema que comprometa toda a experiência, mas aparece com frequência suficiente para incomodar.

Uma esquiva que nem sempre funciona como deveria

Outro aspecto que merece atenção é o sistema de esquiva. A mecânica combina perfeitamente com a proposta de um combate mais dinâmico, mas sua execução nem sempre acompanha a qualidade da movimentação.

O principal problema está na câmera.

Durante confrontos com vários inimigos, a movimentação da câmera pode dificultar a percepção do espaço e o posicionamento das criaturas. Isso se torna especialmente problemático quando precisamos reagir rapidamente a um ataque.

Em algumas situações, uma tentativa de escapar acaba se transformando em um momento de confusão, justamente porque não conseguimos acompanhar com clareza tudo o que está acontecendo na tela.

É uma limitação que chama ainda mais atenção porque a base da jogabilidade é muito boa. Quando a câmera acompanha corretamente a ação, os confrontos são divertidos, fluidos e bastante satisfatórios.

Com pequenos ajustes na precisão da mira e no comportamento da câmera durante as esquivas, acredito que o combate poderia alcançar um nível ainda maior de qualidade.

Explorar é uma das melhores partes da experiência

Se os combates apresentam algumas limitações, a exploração é um dos elementos que mais me agradaram em End of Abyss.

A instalação subterrânea funciona como um grande mapa interconectado, com passagens bloqueadas, caminhos alternativos e áreas opcionais que podem ser acessadas conforme Cel encontra novos equipamentos.

O scanner permite investigar os ambientes, enquanto as ferramentas desbloqueadas durante a campanha abrem caminhos que anteriormente estavam inacessíveis.

Essa estrutura torna a progressão bastante interessante. Retornar a uma área conhecida depois de adquirir uma nova habilidade pode revelar passagens escondidas e recompensar o jogador pela curiosidade.

Existe uma sensação muito boa de estar compreendendo gradualmente aquele lugar, descobrindo seus segredos e percebendo como diferentes setores estão conectados.

Entretanto, a exploração também apresenta alguns problemas.

Em determinados momentos, a organização dos caminhos pode tornar a orientação confusa. O retorno frequente a áreas anteriores nem sempre é tão interessante quanto a primeira visita, especialmente quando não fica claro qual direção devemos seguir.

Ainda assim, considero essa estrutura uma das maiores qualidades do jogo. End of Abyss consegue transformar a exploração em algo que vai além de simplesmente procurar recursos ou documentos.

O mundo parece ter existido muito antes da chegada de Cel, e cada ambiente transmite a sensação de esconder alguma história.

Uma direção de arte que faz toda a diferença

Se existe um aspecto em que End of Abyss realmente impressiona, é na direção de arte.

A mistura de tecnologia abandonada, estruturas industriais deterioradas e criaturas grotescas cria uma identidade visual extremamente interessante. O jogo entende que o terror não depende apenas de ambientes escuros ou monstros assustadores, mas também da maneira como esses elementos são apresentados.

A escala dos cenários é outro detalhe importante. Cel parece constantemente deslocada naquele universo, e a diferença de tamanho entre a protagonista e as estruturas ao redor reforça a sensação de isolamento.

Em diversos momentos, a simples descoberta de uma nova sala ou a presença de uma criatura desconhecida já é suficiente para provocar desconforto.

A narrativa também aproveita essa construção ambiental. Parte da história é apresentada por meio dos cenários e das informações encontradas durante a exploração, mantendo o mistério sobre os acontecimentos da instalação.

Embora algumas questões pudessem receber maior desenvolvimento, a ambientação consegue sustentar o interesse mesmo quando a história não oferece respostas imediatas.

O resultado é um mundo que consegue ser perturbador e fascinante ao mesmo tempo.

E quanto aos problemas técnicos?

As primeiras avaliações de End of Abyss mencionaram problemas de desempenho, algo que naturalmente poderia prejudicar bastante uma experiência tão dependente da movimentação e da precisão dos combates.

Entretanto, minha experiência foi diferente.

Durante a campanha, o jogo apresentou um desempenho sólido, sem problemas técnicos que comprometessem minha diversão. Consegui aproveitar a exploração, os confrontos e a movimentação sem enfrentar dificuldades significativas relacionadas à performance.

Isso não significa que todos os problemas relatados anteriormente tenham sido corrigidos em todas as plataformas. Estou considerando exclusivamente a experiência que tive com a versão utilizada nesta análise.

Os principais problemas que encontrei estão relacionados à jogabilidade, especialmente à precisão da mira e ao comportamento da câmera durante as esquivas.

São limitações importantes, mas que não diminuíram significativamente minha satisfação com o conjunto.

Vale a pena jogar End of Abyss?

End of Abyss foi uma das experiências de terror mais interessantes que joguei recentemente. A influência de Little Nightmares é evidente, mas a Section 9 Interactive consegue construir algo com personalidade própria ao combinar aquela sensibilidade visual com combate, gerenciamento de recursos e exploração.

A ambientação é excelente, a direção de arte impressiona e a jogabilidade apresenta uma base extremamente divertida. Explorar a instalação, enfrentar criaturas e descobrir novas passagens foram atividades que me mantiveram envolvido durante toda a aventura.

É verdade que o jogo apresenta problemas. A mira poderia ser mais precisa, a câmera atrapalha algumas esquivas e a orientação pelo mapa nem sempre é clara. Entretanto, essas limitações não foram suficientes para apagar suas qualidades.

O que mais me conquistou foi justamente a maneira como End of Abyss consegue equilibrar ação e terror sem sacrificar a sensação de vulnerabilidade. Existe uma identidade muito forte por trás de sua construção, algo que considero essencial para experiências desse gênero.

Para um primeiro projeto, a Section 9 Interactive demonstra uma excelente compreensão daquilo que torna um jogo de terror memorável.

Terminei a campanha com aquela sensação de querer explorar mais, descobrir novos segredos e conhecer melhor esse universo. E, para mim, isso diz bastante sobre a qualidade da experiência.

End of Abyss é uma aventura de terror envolvente, visualmente impressionante e com uma jogabilidade extremamente satisfatória. Mesmo com problemas pontuais, é um jogo que merece atenção dos fãs do gênero.

  • Ambientação e direção de arte excelentes;
  • Combate divertido e movimentação ágil;
  • Exploração envolvente e recompensadora.

End of Abyss já está disponível para PlayStation 5, Xbox Series S/X e PC (Epic Games).

Este review só foi possível graças ao envio de uma chave de acesso fornecida pela assessoria, a quem agradecemos pela oportunidade.