Após inúmeros rumores, vazamentos e tantas outras coisas, o remake de Assassin’s Creed Black Flag, jogo originalmente lançado em 2013, foi anunciado em julho do ano passado. Se você acompanha a indústria de videogames, o que recomendo que você não faça, deve saber que a Ubisoft vive maus bocados, com demissões em massa, cancelamento de projetos, fechamento de estúdios e afins. Então, logo de cara, mesmo para os fãs, esse remake cheirou a desespero, ou seja, apelar para a nostalgia daquele que, ao meu ver, é o jogo mais popular da série e, com isso, ganhar o dinheiro que quer com essa franquia, que está longe de suas melhores épocas e já não vende como um dia vendeu.
Pois bem, fato é que ele é real e, depois de demonstrado mais detalhadamente, parece ter convencido aqueles que pareciam pouco confiantes com o jogo, inclusive eu. E digo isso porque nunca fui um fã da franquia, embora goste de alguns jogos. Porém, Black Flag era, com sobras, o que eu mais queria jogar, pois nunca nem mesmo o comecei. Então, aos meus olhos, este remake veio muito a calhar. Mas será que ele é bom mesmo ou só um remaster premium para farmar dinheiro?
Narrativa imersiva e com tom certo
Antes de entrar em detalhes, eu fiquei pensando se contaria spoilers do jogo neste texto. Afinal de contas, estamos falando de um jogo antigo, então não deveria ser um problema. Porém, mesmo ele sendo tão popular, acredito que muitos podem estar na mesma situação que a minha e tendo o primeiro contato com o jogo agora. Então, vou poupar qualquer detalhe profundo sobre a história e até mesmo sobre a gameplay, mas irei expor minha opinião sobre tudo de forma detalhada.

Nós estamos sob a pele de Edward Kenway, um pirata galês que sempre sonhou com uma vida melhor e, quem sabe, um dia poder deixar essa vida de fora da lei para trás. Logo no início, vemos que Edward está em um barco que é completamente destruído em uma batalha e, por algum milagre, consegue sobreviver ao naufrágio, indo parar em uma ilha.
Porém, ele dá o azar de encontrar o algoz que o naufragou, o assassino Duncan Walpole, e ambos entram em conflito, que é encerrado com a morte do membro da Ordem. Edward, curioso e astuto, revista o assassino e descobre que ele possuía uma nobre e importante missão. Naquele momento, vê uma chance de assumir o papel do homem que matou para, quem sabe, ir atrás de sua riqueza.
Logo de cara, a narrativa de Black Flag é curiosa. Ao longo dos anos, sempre que conversava com fãs da franquia, todos diziam que o jogo nunca foi sobre os assassinos e sim, uma história de piratas. Bom, como disse, eu não quero dar spoilers, mas, no fundo, é exatamente isso.
A Ordem dos Assassinos e os Templários ficam somente como ponto inicial e voltam principalmente da metade para o fim. E embora ele ganhe muito peso neste momento, trazendo inclusive um ótimo desfecho, sinto que de fato, a Ordem dos Assassinos é bem deixada de lado em sua maioria, bem mais do que em vários outros jogos da franquia. Mas, não concordo com que diz que ele poderia até se chamar outro nome como já ouvi por aí. Apesar de discreto em sua maioria, a ordem possuí sim peso na narrativa.
Algo que sempre me afastou dos jogos da Ubisoft, em muitos casos, são suas histórias genéricas ou então muito mal contadas. Mas como fiquei feliz em ver que não é o caso de Black Flag. Embora toda a narrativa seja comum, afinal de contas estamos no controle de um jovem pirata que almeja uma vida melhor, sua história é muito interessante de acompanhar e isso se deve, principalmente, ao seu protagonista, Edward, que exala carisma. Seja pelo seu jeito canastrão ou pela sua personalidade, ele conquista mostrando que, apesar do mundo brutal, ainda tem um bom coração e se importa muito com quem está ao seu lado.

Além disso, os personagens secundários seguem a mesma linha de carisma, sejam eles Adéwalé, Edward Thatch (Barba Negra), Anne Bonny e tantos outros. É claro notar que houve um cuidado em dar personalidade para cada um deles, fazendo você se importar com todos, algo muito raro nos jogos da desenvolvedora francesa.
De uma forma geral, a narrativa de Black Flag é, com sobras, a minha favorita da franquia. Eu sei que, para alguns, isso pode soar como uma agressão, mas, novamente, eu não joguei tantos títulos da série, e este talvez tenha sido o primeiro que realmente me fez importar com a história que estava sendo contada.
Furtivo, agressivo ou no barco… não importa, é divertido
Algo que sempre ouço sobre os Assassin’s Creed atuais é que a franquia abandonou a gameplay furtiva, que é a base de sua estrutura. Então, para essas pessoas, este remake será um prato cheio. Vendo alguns materiais de divulgação, descobri que, no jogo original, nas missões em que você precisava necessariamente agir de forma furtiva, caso fosse visto, precisava recomeçar tudo do zero. Aqui, porém, é diferente.
Ao ser visto, a missão continua e ela se adapta para o combate, chegando, em alguns casos, a permitir que o jogador volte ao stealth caso consiga despistar os inimigos.
Além disso, em cada missão principal ou até mesmo nas atividades secundárias, o jogo oferece uma grande variedade de possibilidades para o jogador escolher a forma como deseja jogar, seja de maneira agressiva ou furtiva.
E, sendo agressivo, o sistema de combate foi completamente remodelado. Desta vez, ele segue muito mais a estrutura atual da franquia, mas, até nisso, aqui, para mim, ficou melhor.
Edward, além de poder agir furtivamente, possui espadas, armas de fogo e até mesmo uma corda para atrair inimigos durante as lutas. Durante os combates, o jogador pode esquivar na hora certa para quebrar a postura do adversário ou então aplicar um parry e executar uma bela finalização, encerrando a batalha de forma extremamente estilosa.
E, além disso, estilo é o que não falta. Como estão lindas as animações de combate e dos assassinatos furtivos. Novamente, reforço que houve um claro trabalho extra da Ubisoft com este jogo. Não sei se por respeito ao carinho das pessoas por Black Flag ou pela necessidade de acertar depois de tantos tropeços, mas o fato é que o resultado final é divertido e empolgante.
O mar é um parque de diversão
Isso tudo sem contar as épicas batalhas navais. Vou confessar: eu nunca gostei de batalhas de navios. Isso sempre foi algo que me afastou, seja qual fosse o jogo, mas aqui é completamente diferente.
Isso se dá principalmente pelo nível de cuidado aplicado. Primeiro que é incrível simplesmente guiar o navio pelo mar, pois é possível sentir, no controle, cada onda, o vento e os impactos da embarcação. Além disso, os fenômenos da natureza, como tornados, raios e ondas gigantes, tornam as viagens muito mais envolventes. E isso é elevado ao máximo graças ao visual impressionante e ao áudio simplesmente fabuloso.

E falando sobre as batalhas, reforço tudo o que disse antes e mais um pouco. Recentemente, a Ubisoft lançou um de seus maiores fracassos da história: Skull and Bones, um jogo claramente inspirado em Black Flag e que vinha com a promessa de ser o simulador definitivo de piratas. Bom, o fim você já conhece. Eu não joguei essa bomba, mas, vendo vídeos, fica claro que Black Flag faz praticamente tudo melhor.
As batalhas com disparos de canhões, lançando armadilhas ao mar ou até mesmo invadindo embarcações inimigas são extremamente divertidas e passam o verdadeiro sentimento de ser um pirata. Claro que, ao longo da campanha, você pode acabar enjoando da repetição dessas atividades, mas, para mim, sendo a primeira experiência com esse tipo de gameplay e alguém que sempre teve preconceito com batalhas navais, foi algo realmente empolgante.
Também devo destacar o nível de detalhes dos navios, oferecendo ao jogador uma enorme quantidade de melhorias possíveis para a embarcação. E isso sem contar as músicas cantadas pela tripulação durante as viagens, que ajudam muito na imersão.
O jogo mais bonito da Ubisoft
Apesar de já ter ressaltado isso em outros pontos, preciso reforçar aqui de forma mais clara. Outro fator que sempre me afastou dos jogos da Ubisoft era aquela famosa “cara de jogo da Ubisoft”. Tenho certeza de que você já passou por isso: abrir um Far Cry e depois trocar para um Assassin’s Creed e ficar com a impressão de estar jogando praticamente a mesma coisa.
Isso acontecia porque os jogos da empresa pareciam envelhecer muito rápido, com expressões faciais ruins, texturas ultrapassadas e, principalmente, algo que sempre me incomodou bastante: uma iluminação artificial demais.
Pois fico muito feliz em dizer que isso está muito, mas muito melhor neste remake. E digo com tranquilidade que este é o jogo mais bonito que a Ubisoft já fez.
É um verdadeiro deleite navegar pelos mares graças à qualidade da água, que, além de extremamente detalhada, possui uma movimentação muito realista. E isso vale praticamente para tudo. A iluminação é muito mais natural e condizente com os ambientes; as texturas, sejam das roupas, da vegetação ou até mesmo do chão, estão excelentes; e, principalmente, as expressões dos personagens evoluíram bastante.
Outro ponto que merece destaque são as cutscenes. Não são mais aquelas cenas em que os personagens ficam praticamente parados apenas mexendo a boca enquanto conversam. Agora existe movimentação corporal, gestos e expressões muito mais naturais, tornando todos os diálogos muito mais vivos e convincentes.

Novamente, pelo que vi, o jogo original já fazia um bom trabalho nesse aspecto, mas aqui a Ubisoft foi além. Espero sinceramente que este seja o novo padrão da empresa não apenas para Assassin’s Creed, mas para todos os seus próximos jogos.
Outro aspecto que vale ser ressaltado é o mapa. O jogo possui uma enorme variedade de atividades para realizar, e tudo isso fica ainda melhor graças à beleza de suas cidades e, principalmente, à quantidade de pessoas presentes nelas. Trabalhadores, bares movimentados, guardas patrulhando as ruas… toda a representação histórica apresentada aqui mostra por que a Ubisoft continua sendo uma das grandes referências quando o assunto é recriação de períodos históricos.
Muito bom, mas tropeça
Apesar de até agora eu ter elogiado o jogo praticamente em tudo, como tudo na vida, ele não foge de alguns problemas.
Um dos pontos que mais me incomodou, com certeza, foi a dublagem do jogo. Como praticamente todos os jogos da Ubisoft, ele está totalmente localizado em português, mas deixo aqui minha crítica para a qualidade dessa dublagem.
Pesquisando, vi que o jogo segue o mesmo roteiro do original, mas foi completamente redublado, e é uma pena que a qualidade varie tanto. Em alguns trechos ela é ótima, mas, em outros, chega a ser bem inferior, ficando quase ridícula em certos momentos e passando uma sensação de algo completamente amador. Infelizmente, sinto que esse é um problema relativamente comum nos jogos da empresa.

Outro ponto negativo, sem dúvidas, é a inteligência artificial dos inimigos, que também varia bastante. Em alguns momentos, você elimina um inimigo na frente de outro e ninguém percebe absolutamente nada. Já em outros, principalmente nas missões em que o stealth é o foco, os inimigos parecem ter olhos de águia e enxergam você por causa de um simples movimento errado.
Eu joguei no difícil em todas as categorias, já que o jogo oferece níveis de dificuldade separados para batalhas navais, combate corpo a corpo e furtividade. Mesmo assim, depois que você domina as mecânicas e evolui o personagem, o jogo acaba ficando fácil demais. Ainda assim, fico feliz porque esse tipo de problema pode ser corrigido com atualizações futuras.
Outro ponto negativo está no parkour. Embora eu sinta que ele esteja melhor do que em outros jogos da franquia, às vezes ainda é um pouco impreciso. Foram algumas situações em que fiquei exposto aos inimigos simplesmente porque apontei para uma direção e Edward acabou realizando um movimento completamente diferente do que eu queria.
Vale a pena?
Eu digo tranquilamente que sim.
Se você é fã da franquia e sente falta do estilo dos Assassin’s Creed antigos, este remake é praticamente obrigatório. Ou então, se você, assim como eu, nunca foi tão próximo da série, mas sempre quis jogar Black Flag, esta é, sem dúvidas, a melhor forma possível de conhecer esse clássico.

Divertido, lindo e com uma narrativa extremamente envolvente, Black Flag entrega uma das melhores experiências que tive neste ano com videogames. Mesmo com alguns velhos vícios da franquia e pequenos tropeços, eles nunca chegaram a atrapalhar minha diversão, e o jogo foi capaz de me deixar com um sorriso no rosto durante praticamente toda a campanha.
Torço para que esse mesmo nível de atenção seja dado aos próximos jogos da franquia. Os fãs merecem isso, e Assassin’s Creed também.

- Narrativa envolvente e personagens carismáticos;
- Gameplay variada e divertida;
- Visual impressionante.
Assassins Creed Black Flag Resynced estará disponível para PC, PlayStation 5 e Xbox Series S/X.
Este review só foi possível graças ao envio de uma chave de acesso fornecida pela assessoria, a quem agradecemos pela oportunidade.