“Pensando em nossa marca e no fã de Xbox, decidimos tornar Gears of War: E-Day exclusivo de console”. Essa foi a frase de impacto que a atual chefe do Xbox, Asha Sharma, disse no começo do Xbox Showcase realizado no dia 7 deste mês. Pensando como um fã de Xbox, talvez essa seja a frase que sempre sonhou em ouvir, já que, de uns dois anos para cá, a marca tem se tornado cada vez mais multiplataforma e deixado seu console de lado, tornando-o mais caro, focando mais em suas produções e, claro, no Game Pass.

Quando ouvi isso, logo pensei: “uau, o Xbox voltou mesmo”. Bom, isso durou alguns minutos, já que em seguida veio um trailer de State of Decay, que chegará ao PS5 no day one. E assim foi em seguida, com vários novos jogos chegando ao seu rival, além da exibição do logo da marca em praticamente todos os trailers.

Bom, então, o que foi essa frase de Asha, que disse que iria mudar tudo e valorizar o fã de Xbox? Para mim, um lindo show para bobo dançar. Desculpe a palavra mais pesada, mas acho que ela é necessária, pois até hoje, desde que ela assumiu o cargo, eu nunca caí em seu discurso, por mais que quase tenha acreditado em vários momentos.

A crise no Xbox é conhecida por todos, com quedas nas vendas de consoles, perda de assinantes do Game Pass e, além disso, seus jogos perderam completamente o impacto. Mesmo suas grandes franquias já não atraem tanto como um dia atraíram, e isso fica claro quando vemos o símbolo do lado verde, Halo, chegando ao PlayStation.

Desde sempre, adoto um discurso de tristeza ao ver o Xbox dessa forma, pois concorrência é tudo. Pensar em uma empresa mercenária como a Sony dominando o mercado só me deixa frustrado, pois ela certamente irá nos explorar sem dó. Mas, afinal de contas, como o Xbox se deixou chegar ao fundo do poço? Culpa de Phil Spencer? Não, ele não é nem de perto o principal responsável.

Nos últimos dias, o cara que salvou essa marca vem sendo crucificado pela cúpula caixista como o grande culpado, mas essa galera tem uma visão muito limitada. Sem ele, o Xbox talvez nem fosse relevante nos dias atuais. Quem usa o cérebro já sabe disso. Então quem é o culpado? Para mim, a própria Microsoft.

A crise no mundo dos videogames estourou principalmente após a escassez de componentes utilizados na fabricação de hardware. A bolha da inteligência artificial tem encarecido tudo e não é à toa que estamos vendo tudo ficar mais caro. Com isso, o dinheiro simplesmente desapareceu e alguém precisa pagar a conta. Mas você sabia que uma das maiores financiadoras de IA do mundo é a própria Microsoft?

Fato é que a marca morde o próprio rabo, e isso não vem de hoje. A compra bilionária da Activision, avaliada em cerca de R$ 80 bilhões, além da aquisição da Bethesda, deixava claro que essa conta chegaria um dia. Estamos falando de uma marca, o Xbox, que nunca foi líder absoluta nesse mercado e arriscou tudo acreditando que a compra, principalmente de Call of Duty, salvaria seu console e faria as pessoas comprarem um Xbox e assinarem o Game Pass. E eu fico realmente assustado com isso.

Eu, que não sou absolutamente nada na fila do pão, sempre soube que isso não iria acontecer. Videogame não é como uma blusa que você troca de um dia para o outro e pronto. Sony, Nintendo e Steam estão há anos construindo seu público, que dentro de seus ecossistemas gastou fortunas investindo em diversos jogos e, mais do que isso, criou um elo emocional muito difícil de abandonar, mesmo que um jogo de que eu goste fique preso a uma marca pela qual eu nunca liguei antes.

O maior erro do Xbox foi achar que as pessoas não possuem envolvimento emocional com esses consoles. Além disso, o Xbox nunca se destacou exclusivamente por seus jogos. Sua liderança na época do Xbox 360 se deu pela facilidade de acessar partidas multiplayer e por um sistema facilitado de navegação. Os jogos, mesmo vivendo uma era de ouro, nunca alcançaram a popularidade de franquias como Mario, Zelda, God of War ou The Last of Us. Então por que pensar que seu console precisava apenas de “exclusivos”?

Eu admito que entendo a estratégia e acredito que, lá dentro, eles realmente achavam que daria certo, mas o passo foi grande demais. Deve ser difícil para pessoas como Satya Nadella aceitar que dinheiro não compra tudo. E amor, definitivamente, não é algo comprado à força. “Quer jogar COD? Eu comprei tudo, agora compre meu console.” Não, não é assim que as coisas funcionam.

Fato é que a lista de erros do Xbox é tão grande que eu poderia ficar horas falando sobre ela, mas, no fundo, todos nós sabemos quais foram. E, por favor, não seja bobo: Asha Sharma não é a salvação de nada. Ela nada mais é do que uma pessoa colocada para falar o que o “povo” quer ouvir, enquanto, por trás, continuam sendo tomadas as decisões pesadas que sempre foram tomadas. Mas, no fim, quem sabe os súditos de Asha possam dizer: “ela tentou, né?”. E não, ela não tentou.

Caso você seja um fanático por Xbox e ainda se iluda com discursos de executivos, eu já adianto: você continuará se decepcionando. Mas, caso queira que a marca continue existindo, aceite a realidade.

Até porque, para mim, muitos desses chamados fanboys são alguns dos maiores culpados por toda essa situação. Afinal, tenho certeza de que você conhece alguém que criava contas infinitas para usar o Game Pass pagando apenas R$ 5 no primeiro mês; que, lá atrás, quando a marca estava estabilizada, não cobrava investimentos em grandes jogos; ou que aplaudia a compra desenfreada de estúdios sem que houvesse o mínimo de planejamento para administrá-los.

O Xbox está se tornando a Sega desta geração. E isso pode ser algo positivo, porque assim ela tem tudo para se tornar uma das marcas mais poderosas dos videogames. Não como fabricante de consoles, como um dia imaginou que seria, mas sim como uma poderosa publisher de jogos. E tomara que eles corram logo para esse caminho, pois quem está sangrando com esses discursos para bobo dançar, não são os responsáveis e não merecem pagar essa conta.