A Investigação Póstuma parte de uma premissa criativa: adaptar o universo literário de Machado de Assis para um jogo investigativo com elementos narrativos e mecânicas de looping temporal. Inspirado diretamente em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o título coloca o jogador no papel de um detetive encarregado de solucionar o assassinato do próprio Brás Cubas — missão que lhe é atribuída por meio de uma carta póstuma deixada pela vítima.
A investigação se desenrola pelas ruas do Rio de Janeiro e reúne personagens icônicos não apenas da obra original, mas também de outros clássicos do autor, como Dom Casmurro e O Alienista. Figuras como Capitu, Bentinho e o Dr. Simão Bacamarte surgem integradas à narrativa, ampliando o universo do jogo de forma coesa e interessante.
Estilo visual e proposta de “livro jogável”
Visualmente, o jogo aposta em uma estética monocromática — dominada por tons de preto, branco e cinza — que ajuda a situar o jogador em um ambiente de época. A proposta de “livro jogável” é reforçada pela estrutura narrativa e pelo foco em texto, lembrando experiências como Disco Elysium, embora com menor profundidade em interações e escolhas.
Apesar de inicialmente sugerir liberdade total, o jogo segue uma progressão relativamente linear. O jogador pode decidir a ordem de suas ações, mas só avança ao cumprir objetivos específicos, o que limita parcialmente a autonomia prometida.

O sistema de looping temporal é um dos maiores destaques. O detetive revive o mesmo dia repetidamente até solucionar o caso, criando uma dinâmica baseada em tentativa, erro e descoberta gradual.
A trilha sonora acompanha essa proposta: inicialmente repetitiva — a ponto de se tornar levemente incômoda —, ela parece intencionalmente construída para reforçar a sensação de ciclo. Com o avanço da história, novas variações musicais surgem, suavizando essa repetição.
Um mundo vivo e personagens com rotinas próprias
O mundo do jogo se destaca pela consistência. Cada personagem possui uma rotina própria dentro do loop, com ciclos bem estruturados que acontecem independentemente da presença do jogador. Essa autonomia cria a sensação de um ambiente vivo, onde eventos continuam a acontecer mesmo sem intervenção direta.

Ao longo das cerca de 15 horas disponíveis antes do reinício do ciclo, é comum encontrar personagens em situações inesperadas — muitas vezes ignorando o detetive por ele ainda não fazer parte de suas narrativas.
A mecânica de revisitar eventos permite observar novos diálogos, descobrir pistas ignoradas anteriormente e explorar diferentes caminhos. No entanto, por se tratar de um jogo fortemente baseado em texto, há um ponto negativo: interações já vistas se repetem integralmente, exigindo que o jogador avance manualmente pelos diálogos.
Embora coerente com a lógica do looping — já que apenas o detetive mantém suas memórias —, essa repetição pode se tornar cansativa ao longo do tempo.
Brás Cubas como guia narrativo
Um dos elementos mais interessantes é a presença de Brás Cubas como uma espécie de manifestação — seja uma alucinação, consciência ou entidade — que auxilia o jogador. Essa “companhia” funciona como guia opcional, ajudando a relembrar pistas, aprofundar investigações e orientar o progresso, sem comprometer a autonomia do jogador.
Nos puzzles, o jogo entrega desafios competentes, ainda que pouco numerosos. Muitos exigem múltiplos ciclos para serem concluídos, o que pode gerar frustração quando o tempo se esgota antes da execução completa de um plano.

Com o avanço da narrativa, o jogador passa a identificar padrões estruturais, como o encerramento abrupto de certas tramas. Esse recurso pode inicialmente atrapalhar o planejamento, mas se torna mais previsível com a experiência.
Originalidade e identidade no cenário indie
No geral, A Investigação Póstuma se destaca por sua originalidade. Ao combinar investigação, gerenciamento de tempo, narrativa literária e um mundo reativo, o jogo cria uma experiência envolvente e incomum dentro do cenário indie.
Outro mérito importante é sua acessibilidade: embora profundamente inspirado na obra de Machado de Assis, o jogo não exige conhecimento prévio. Ainda assim, quem conhece os textos originais encontrará um nível extra de apreciação nas referências.

Vale a pena?
Mesmo com limitações, como certa superficialidade investigativa e repetição de diálogos, A Investigação Póstuma apresenta uma evolução consistente ao longo de sua narrativa. Com tom leve, direção artística marcante e uma construção de mundo sólida, o título se firma como uma experiência relevante — e uma homenagem criativa à literatura brasileira.

- Narrativa original que adapta Machado de Assis de forma criativa e envolvente
- Mundo vivo com personagens que seguem rotinas próprias
- Sistema de investigação com gestão de tempo que adiciona estratégia à experiência
A Investigação Póstuma já está disponível para PC.
Este review só foi possível graças ao envio de uma chave de acesso fornecida pela assessoria, a quem agradecemos pela oportunidade.