1348: Ex Voto é daqueles jogos que chamam a atenção logo de cara. A proposta mistura aventura medieval sombria, foco narrativo e um sistema de combate inspirado em técnicas reais de espada, acompanhando uma protagonista em uma jornada pessoal intensa.
Em alguns momentos, o jogo realmente parece cumprir essa promessa. No entanto, conforme a experiência avança, fica claro que o título tem dificuldade em sustentar o próprio potencial.
Desde o início, é inevitável a comparação com produções narrativas em ambientações semelhantes, como Hellblade: Senua’s Sacrifice e A Plague Tale: Innocence. A aproximação acontece não apenas pelo tom mais sério e intimista, mas também pela tentativa de integrar história e combate de forma significativa. A diferença é que, enquanto nesses jogos o combate funciona como extensão da narrativa, em 1348: Ex Voto ele acaba se tornando mais um obstáculo do que um elemento que fortalece a experiência.
Embora seja importante considerar que os títulos citados contam com orçamentos maiores — sendo produções AA ou até AAA — a comparação evidencia um ponto central: o jogo acaba se tornando refém da própria ambição.
Um começo promissor
A premissa é simples, mas eficiente. O jogador assume o controle de Aeta, uma cavaleira que parte em busca de Bianca, sua companheira, em meio a uma Itália medieval marcada por violência, peste e fanatismo religioso.
A ambientação é, sem exagero, o ponto mais forte do jogo. A direção artística possui identidade clara e consegue transmitir a sensação de uma jornada solitária e pesada. Nos momentos iniciais, a experiência prende a atenção e dá a impressão de que o jogador está diante de algo mais autoral e focado na narrativa.

Mas essa impressão começa a mudar conforme a jogabilidade se aprofunda.
Combate é o principal problema
A proposta do sistema de combate é interessante: lutas mais cadenciadas e técnicas, inspiradas em artes marciais europeias históricas.
Na prática, porém, a execução deixa a desejar. O combate se mostra travado, confuso e, em diversos momentos, frustrante.
O sistema de lock-on não ajuda na leitura das batalhas, enquanto a câmera muito próxima dificulta a visualização dos confrontos. Como resultado, vários encontros acabam se transformando em tentativa e erro, em vez de recompensar habilidade ou estratégia.

Há situações em que o jogador entende claramente o que deveria fazer, mas o jogo simplesmente não responde como esperado. Isso pesa ainda mais porque o combate não é opcional — ele é parte central da experiência.
Estrutura linear e pouca sensação de evolução
A estrutura do jogo é bastante linear e oferece pouca liberdade de exploração. Isso não seria necessariamente um problema se outros elementos compensassem essa escolha.
No entanto, o sistema de progressão é relativamente superficial. As habilidades desbloqueadas não alteram significativamente a forma de jogar, o que reduz a sensação de evolução ao longo da campanha.
Com duração aproximada entre sete e nove horas, o jogo evita se estender além do necessário, mas ao mesmo tempo deixa a impressão de que algo ficou faltando.
Narrativa com potencial, mas pouco explorada
A relação entre Aeta e Bianca é o coração da narrativa. Ainda assim, o jogo não desenvolve esse vínculo com a profundidade que a proposta sugere.
Um ponto positivo é a maneira como o título aborda representatividade. A relação entre as personagens apresenta um toque sutil de temática LGBTQIA+, tratado com naturalidade e sem parecer forçado ou utilizado apenas como recurso superficial.

Esse elemento ajuda a dar mais identidade à história e às protagonistas, especialmente dentro do contexto medieval apresentado. No entanto, o impacto poderia ser maior caso o roteiro explorasse melhor o lado emocional da trama.
No geral, existem momentos interessantes e algumas cenas que buscam trazer peso narrativo, mas que não se sustentam ao longo de toda a campanha.
Problemas técnicos prejudicam a imersão
Outro fator que influencia negativamente a experiência é a falta de polimento técnico.
Durante a jogabilidade, são perceptíveis:
- Quedas de desempenho em momentos específicos;
- Animações estranhas, principalmente faciais;
- Pequenos bugs de interação;
- Transições pouco naturais entre gameplay e cutscenes.
Individualmente, esses problemas não seriam suficientes para comprometer totalmente o jogo. No entanto, somados ao combate já problemático, acabam reforçando a sensação de um produto que poderia ter se beneficiado de mais tempo de desenvolvimento.

Conclusão
1348: Ex Voto é um jogo que tinha todos os elementos para se destacar — e isso talvez seja justamente o que mais pesa contra ele.
O título apresenta uma direção artística consistente, uma proposta interessante e momentos que revelam um potencial claro. Ainda assim, a experiência não consegue amarrar todos esses aspectos de forma convincente.
O combate frustra, a narrativa não alcança o impacto que promete e os problemas técnicos indicam falta de polimento.
Apesar disso, a tentativa de construir uma história mais íntima, aliada a elementos de representatividade, demonstra que havia uma intenção criativa relevante por trás do projeto.
No fim, fica a sensação de um jogo ambicioso que mirou alto, mas não conseguiu atingir plenamente seus objetivos.
Mesmo com as falhas, o trabalho da equipe de desenvolvimento merece reconhecimento. É possível perceber paixão e vontade de criar algo diferente. A expectativa agora é que o estúdio consiga evoluir em um próximo projeto — talvez com um escopo mais controlado ou uma estrutura mais alinhada com a ambição apresentada aqui. O potencial, sem dúvida, existe.

- Narrativa tem boas ideias
- Direção de arte
- Ambientação medieval
1348: ex voto já está disponível para PlayStation 5 e PC.
Este review só foi possível graças ao envio de uma chave de acesso fornecida pela assessoria, a quem agradecemos pela oportunidade.